Filipe Marques: And When I Die I Won't Stay Dead

Jun 20 - Sep 19, 2026 Braga
Overview

não há tragédia, apenas quase nada

Não falo da antevisão da morte, que é insípida e frequentemente desagradável. O sofrimento

entorpece os sentidos. Mas esta é a incrível verdade e dela estou certo: sinto um ilimitado prazer em viver e terei uma ilimitada satisfação ao morrer. (Maurice Blanchot)

 

Esperar a morte e continuar. Por causa dela. Sem abandono. O fracasso, a ausência, a

falha, nomeiam o peso da vida sentenciada como num cadafalso. Se, como escreveu

Artaud para toda a criação, a prática artística é também um acto de guerra, o que as

imagens de And When I Die I Wont’t Stay Dead ensaiam, é a inscrição nessa força

vital que configura este projecto expositivo. Não há corpos adormecidos por canções

de embalar, somente o desastre moribundo que invade o absoluto dos dias. Partir

sempre em direcção ao que envolve a matéria para aí repousar. O espaço habitado

por objectos instalados em suportes de madeira nos quais o negro se glorifica, mate-

rializa representações que iluminam segredos onde tudo parece acontecer — fardas,

flores, roupa interior, vestidos, facas, calçado, alfinetes de bebé que fixam poemas

escritos em papel. A escuridão, que as esculturas de figuras femininas igualmente

simbolizam, objectiva-se em imagens quietas que tanto parecem encontrar o vazio

do tempo como ocultar silêncios nos quais se desvanecem antigos refrões.

Desenhos hiper-realistas anunciam cenas das óperas Die Soldaten e Salomé

que têm vindo a acompanhar a obra de Filipe Marques assumindo-se como enun-

ciados transversais ao seu percurso. Desta forma, manifestam a sua relevância na

consolidação de um programa crítico. Repete-se a morte em preto e branco que, na

carne, ora se oculta ora se ilumina.

Pinturas monocromáticas, acrílicos e colagem, textos escritos e projeccões

fragmentadas, inscrevem este filme-assemblage no território do inconsciente maquí-

nico para falar como Deleuze e Guattari. A libertação da vigilância e a resistência ao

exercício do poder sobre os corpos, configuram relações de produção de desejo que

subvertem a normatividade e derivam sem sujeição: “fazer amor não é ser-se um só,

nem mesmo dois, mas cem mil. As máquinas desejantes ou o sexo não humano, são

precisamente isto: nem um, nem mesmo dois, mas n...sexos (...) num sujeito, para lá

da representação antropomórfica que a sociedade lhe impõe”.1 Quando a produção

irrompe no mundo da representação apela a forças que a superam e atravessam,

contribuindo para a sua falência. Cortes e fluxos potenciam o sentido radical e a

experimentação rizomática. Quebram as significações sociais existentes.

A operação artística que nos é sugerida faz-se a partir da estranheza de uma

certa auto-referencialidade que não se limita às formas normalizadas da inteligi-

bilidade da diferença. Questionando a domesticação da heterogeneidade, Filipe

Marques convoca a impossível negociação com o espaço da moral. Sempre a ocupar

o centro. Como a casa. A luz branca intensifica a força da estrutura que se quer indi-

visível como todos os modos de protecção. Nunca é suficiente uma história de amor.

O repouso das coisas torna-se uma condição do mistério. O que vacila nas pala-

vras escritas é capturado na densidade do encontro. A linguagem, sem denotação

fixa, converte-se num abismo extradiscursivo que nos mostra a rêverie que subjaz à

ordem da lei.

Uma cadeira é transformada em máquina escultórica psicopolítica que cui-

dadosamente teatraliza o imaginário. À semelhança da máquina de aniquilamento

kantoriana, o significado é esvaziado mas capaz de fabricar o impossível. As luzes

apagam-se. Restam os escombros. Sem escuta clínica. O irrepresentável. Entre Are

We All Museums of Fear? e All Animals are Bad All of Them are a Meal Away até à

proposta And When I Die I Wont’t Stay Dead que o artista nos apresenta na galeria

Duarte Sequeira, é uma poética da memória que se constrói como uma espécie de

violenta jaula através da qual os lugares de terror se convertem em imagens da fini-

tude. Não há tragédia. Apenas quase nada.

 

— Eduarda Neves

(a autora escreve segundo a antiga ortografia)

 

1 Gilles Deleuze e Félix Guattari — O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1. Lisboa: Assírio e Alvim, 2004, p. 308.