Filipe Marques: And When I Die I Won't Stay Dead
não há tragédia, apenas quase nada
Não falo da antevisão da morte, que é insípida e frequentemente desagradável. O sofrimento
entorpece os sentidos. Mas esta é a incrível verdade e dela estou certo: sinto um ilimitado prazer em viver e terei uma ilimitada satisfação ao morrer. (Maurice Blanchot)
Esperar a morte e continuar. Por causa dela. Sem abandono. O fracasso, a ausência, a
falha, nomeiam o peso da vida sentenciada como num cadafalso. Se, como escreveu
Artaud para toda a criação, a prática artística é também um acto de guerra, o que as
imagens de And When I Die I Wont’t Stay Dead ensaiam, é a inscrição nessa força
vital que configura este projecto expositivo. Não há corpos adormecidos por canções
de embalar, somente o desastre moribundo que invade o absoluto dos dias. Partir
sempre em direcção ao que envolve a matéria para aí repousar. O espaço habitado
por objectos instalados em suportes de madeira nos quais o negro se glorifica, mate-
rializa representações que iluminam segredos onde tudo parece acontecer — fardas,
flores, roupa interior, vestidos, facas, calçado, alfinetes de bebé que fixam poemas
escritos em papel. A escuridão, que as esculturas de figuras femininas igualmente
simbolizam, objectiva-se em imagens quietas que tanto parecem encontrar o vazio
do tempo como ocultar silêncios nos quais se desvanecem antigos refrões.
Desenhos hiper-realistas anunciam cenas das óperas Die Soldaten e Salomé
que têm vindo a acompanhar a obra de Filipe Marques assumindo-se como enun-
ciados transversais ao seu percurso. Desta forma, manifestam a sua relevância na
consolidação de um programa crítico. Repete-se a morte em preto e branco que, na
carne, ora se oculta ora se ilumina.
Pinturas monocromáticas, acrílicos e colagem, textos escritos e projeccões
fragmentadas, inscrevem este filme-assemblage no território do inconsciente maquí-
nico para falar como Deleuze e Guattari. A libertação da vigilância e a resistência ao
exercício do poder sobre os corpos, configuram relações de produção de desejo que
subvertem a normatividade e derivam sem sujeição: “fazer amor não é ser-se um só,
nem mesmo dois, mas cem mil. As máquinas desejantes ou o sexo não humano, são
precisamente isto: nem um, nem mesmo dois, mas n...sexos (...) num sujeito, para lá
da representação antropomórfica que a sociedade lhe impõe”.1 Quando a produção
irrompe no mundo da representação apela a forças que a superam e atravessam,
contribuindo para a sua falência. Cortes e fluxos potenciam o sentido radical e a
experimentação rizomática. Quebram as significações sociais existentes.
A operação artística que nos é sugerida faz-se a partir da estranheza de uma
certa auto-referencialidade que não se limita às formas normalizadas da inteligi-
bilidade da diferença. Questionando a domesticação da heterogeneidade, Filipe
Marques convoca a impossível negociação com o espaço da moral. Sempre a ocupar
o centro. Como a casa. A luz branca intensifica a força da estrutura que se quer indi-
visível como todos os modos de protecção. Nunca é suficiente uma história de amor.
O repouso das coisas torna-se uma condição do mistério. O que vacila nas pala-
vras escritas é capturado na densidade do encontro. A linguagem, sem denotação
fixa, converte-se num abismo extradiscursivo que nos mostra a rêverie que subjaz à
ordem da lei.
Uma cadeira é transformada em máquina escultórica psicopolítica que cui-
dadosamente teatraliza o imaginário. À semelhança da máquina de aniquilamento
kantoriana, o significado é esvaziado mas capaz de fabricar o impossível. As luzes
apagam-se. Restam os escombros. Sem escuta clínica. O irrepresentável. Entre Are
We All Museums of Fear? e All Animals are Bad All of Them are a Meal Away até à
proposta And When I Die I Wont’t Stay Dead que o artista nos apresenta na galeria
Duarte Sequeira, é uma poética da memória que se constrói como uma espécie de
violenta jaula através da qual os lugares de terror se convertem em imagens da fini-
tude. Não há tragédia. Apenas quase nada.
— Eduarda Neves
(a autora escreve segundo a antiga ortografia)
1 Gilles Deleuze e Félix Guattari — O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1. Lisboa: Assírio e Alvim, 2004, p. 308.

